19 out, 2012

Publicado em Discussões e debates

Agressões veladas

Foi um encontro intenso e extremamente íntimo. Discutimos um caso clínico (que chamaremos a pessoa de P) onde P estava muito desesperada com as agressões que o parceiro, veladamente, dirigia à ela diariamente.

A psicoterapeuta que a atende relatou um pouco da história de P ressaltando que a paciente foi constantemente vítima de abusos verbais durante seu desenvolvimento, dentro de sua sociometria primária, ou seja, de sua família.

Neste momento da supervisão, paramos um pouco para discutirmos as diversas formas de abusos emocionais que muitas vezes ocorrem durante o desenvolvimento das crianças. A partir daí relemos alguns trechos do livro Sobrevivência Emocional, da psicodramatista Rosa Cukier.

A autora, através da revisão de artigos, livros e temas sobre o narcisismo, nos ajuda a perceber que existem duas formas de abusos: o físico e o emocional. Formas de abuso emocional derivam da não consciência, desrespeito, repetição de padrões e/ou despreparo para lidar com algumas características observadas no desenvolvimento neuropsicológico da criança (páginas 17 a 23 do livro mencionado acima).

Uma das características que mais refletimos nesta supervisão foi de que toda criança constrói sua identidade (em conjunto com sua carga e herança genética) a partir da frequência, intensidade e do clima relacional das experiências vividas com as pessoas ao seu redor.

Para entender melhor, como a criança não sabe de seu valor intrínseco, ou seja, que ela é valorizável, não nasce sabendo o quanto vale para o mundo e para os outros é na forma e nos conteúdos expressos na relação com a criança que esta saberá o quanto é bela, forte, interessante, bondosa ou se é chata, impertinente, desinteressante, feia.

Neste instante das reflexões comentei de ter visto um exímio psicólogo clínico em um programa de televisão respondendo a perguntas sobre autoestima. Em um determinado momento o apresentador perguntou se as pessoas bonitas, por serem mais assediadas e amadas, tinham a autoestima mais  elevada. Ele respondeu que a questão talvez devesse ser respondida por outro ângulo e disse: “Não. Pessoas que se sentiram amadas tiveram sua auto-estima elevada e, consequentemente, se sentem mais bonitas”.

Esta passagem nos fez relaxar um pouco com o clima tenso que se instalara. Assuntos de violência, negligência, desamparo ou abusos por parte de adultos que supostamente deveriam zelar pelo cuidado e apoio no desenvolvimento de todo ser humano sempre reviram as lembranças de psicólogos, psiquiatras e tantos outros agentes de saúde que escolheram a profissão como forma, em algum nível e intensidade, de reparar tais experiências em si mesmos.

Trabalhamos dramaticamente (em outros relatos teremos a oportunidade de explicar mais detalhadamente como funciona o trabalho dramático) alguns sentimentos despertados na psicoterapeuta no intuito de trabalhar os “nós na garganta que ela sentia quando atendia P” e também verificarmos se algum material psicológico da profissional estava interferindo na perda da espontaneidade com a paciente.

Depois de compartilharmos com a terapeuta algumas de nossas dificuldades com pacientes que também nos tocam muito, finalizamos a supervisão conversando longamente em como as agressões do  passado vividas por P e sua cristalização no papel psicodramático de anular suas tristezas e raivas, diminuíam seu  potencial de escolher novas formas de viver a conjugalidade, de escolher novas regras para esta relação ou viver novas formas de responder a vida.

Antes de finalizarmos, conversamos sobre várias formas de intervenção que pudessem ajudar no caminhar da relação terapêutica de P com sua psicoterapeuta e finalizamos o encontro.

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