7 jun, 2013

Publicado em Discussões e debates

Angústias do Terapeuta

Nesta semana a supervisão girou em torno da angústia do terapeuta. Talvez fosse melhor dizermos da angústia dos profissionais de saúde em geral.

Como lidar com perspectivas antagônicas sem demonstrarmos arbitrariedades, ou pior, sermos autoritários?

Expliquemos o foco da supervisão: como lidar com a perspectiva do paciente que verbaliza não achar que precisa mais de ajuda, de continuar com o tratamento ou começar um trabalho onde buscava esta ajuda?

E quando do outro lado da relação, o profissional de saúde, tem uma perspectiva totalmente oposta (de que ele precisa)?

Situação hilária o exercício imaginário de uma pessoa buscando ajuda em um primeiro momento e, em seguida, o profissional tentando convencer e ajudar o “paciente” de que ele não está bem e precisa desta ajuda. Irônica e corrosiva inversão de papéis: a princípio. O suposto exercício acima parece descabido e embaraçoso para o profissional. O coloca em uma posição que não é de sua função.

Por outro lado, a descrição acima faz alegoria com a brincadeira de cabo de guerra. Duas forças puxando e direcionando intenções, perspectivas ou interesses para caminhos distantes e opostos. Podemos também imaginar caminhos ligados a uma disputa de valores, vontades, desejos…

Mas como colocar a perspectiva de ajuda para uma pessoa que não quer, não pode ou está irredutível de aceita-la em relação a do profissional que percebe, a partir da sua referência, que o outro se beneficiaria desta troca naquele momento?

Tive o cuidado de usar a palavra benefício e momento para não passar a impressão de que o dito especialista detêm a verdade e sabe o que é melhor para o outro.

O intuito aqui é a construção de um diálogo que não coloque o outro na posição de doente e inadaptado, e consequentemente o psicólogo (ou qualquer agente de saúde) no lugar de curador de doentes, mas na relação de um especialista (aquele que caminha junto no trajeto de criar outras formas de ver, entender, fazer, relacionar) com outro especialista (aquele que detêm vários saberes sobre si, mas em que alguns momentos não estão organizados de uma maneira que o ajude a seguir adiante em seus problemas).

Exemplo da situação: paciente que após algumas sessões trazendo situações de alto grau de complexidade em relação a seus problemas e cujo sintomas como cansaço, insônia e forte peso na região peitoral, “como se fosse explodir”, resolve interromper o início do trabalho.

Inúmeros são os caminhos de se pensar a situação: como foi feito o contrato de trabalho, descarrego de tensão por parte do paciente, contra-transferência, defesas fóbicas de evitação pós alívio sintomático, ansiedade do terapeuta frente aos problemas expostos e etc…

Resolvemos refletir sobre alguns fatores terapêuticos que facilitam a permanência das pessoas trabalhando em psicoterapia – onde a busca pelo serviço de ajuda já é ansiogênica em si mesma (uma das razões é que a busca por psicoterapia evidencia\escancara demais algum sofrimento ou falta de perspectiva para lidar com algo que angustia ou que está machucando e preferimos não ver).

Uma analogia simples do que foi dito acima (e um pouco reducionista, claro) é a pessoa que tem um machucado exposto e resolve não fazer nada porque causaria mais dor. A curto prazo uma evitação de sensações desprazerosas; a médio e longo prazo uma possível infecção e complicação do caso.

Passamos então a discutir alguns destes fatores terapêuticos que ajudariam a estabelecer um laço de confiança, a facilitação do exercício da empatia e o acolhimento necessário no processo de ajuda:

  1. Instalação da esperança
  2. Modelagem comunicacional
  3. Diminuição da ansiedade
  4. Foco no discurso da relação (ou meta-relação)

 

Na próxima semana continuaremos com o final da discussão (sobre os fatores terapêuticos), reflexões e sentimentos gerados.

  1. O texto é ousado na medida em que aponta dificuldades encontradas pelo terapeuta em clarear demandas para que o cliente se sinta implicado e motivado em seu processo de mudanças. A forma como foi abordada a dificuldade do cliente em se manter no processo psicoterápico, quando ainda é perceptível para o terapeuta que há necessidade de permanência, exclui a conotação negativa de que o cliente é resistente para mudar e coloca o terapeuta como co-responsável para a manutenção do cliente em terapia. Aponta que para isso existem teorias e técnicas que orientam e apoiam o seu trabalho.

    • Ricardo says:

      Olá Valdeci,

      Como você percebe esta co-responsabilidade do Terapeuta em seu trabalho clínico diário?

      • Então Ricardo,
        Sabemos que buscar ajuda psicológia não é uma decisão fácil de ser tomada. Afinal, o cliente muitas vezes se encontrará com um “estranho”, para falar de dificuldades íntimas que para ele sozinho, pode ser difícil de encarar.Portanto, percebo na prática que uma atitude acolhedora, empática e compreensiva é o primeiro passo para que o cliente se sinta mais confortável em se expôr. Durante todo o processo psicoterapêutico, estou sempre “checando” juntamente com o cliente sua disposição para abordar possíveis demandas terapêuticas. E mesmo assim, há que se ter estratégias para não ultrapassar limites suportáveis de quem se encontra em sofrimento. Além disso, cabe ao terapeuta esclarecer para o cliente desde o início como o funciona a terapia e quais os papéis de cada um no processo.

  2. Ana Luiza says:

    Confesso que, até então, não estava acompanhando os textos publicados no blog. Entrei em contato com os textos agora e achei de extrema importância a ideia de existir um espaço para registrar as experiências e reflexões vivenciadas por um grupo de psicoterapeutas. Não faço parte deste grupo de supervisão, mas como terapeuta também, me sinto menos solitária na minha prática quando leio as questões e sentimentos relatados nestes textos! Somos todos companheiros nesta árdua e fascinante caminhada de nos tornarmos terapeutas! Parabéns pela iniciativa! Espero pelos próximos relatos…

    • Ricardo says:

      Ei Ana,

      Também acho que o trabalho clínico pode se tornar solitário. Mas temos recursos para diminuir esta solidão. Quais são os recursos que você utiliza para amenizar esta parte do trabalho clínico diário?

      Não sei se todos entenderão porque parece um pouco paradoxal: Tantos relacionamentos por dia e ainda assim falamos aqui de solidão…?

      O que acha?

  3. Fabianna says:

    É realmente muito tênue a linha entre procurar comunicar nossa percepção como profissional e agir de forma autoritária ou pretensiosa para o cliente. Creio que esse seja um dos nossos desafios quase diário, afinal estamos lidando com a fragilidade do outro. Acho sempre bom ter a referencia de outros colegas.

    • Ricardo says:

      Fabiana, tudo bem?

      Também acho que é uma linha tênue. Ainda assim percebo que temos alguns marcadores que nos ajudam a solidificar tais fronteiras. Quais preditores ou marcadores você acha que ajudariam a separar bem as duas posições(de percepção de ajuda e de autoritarismo)?

  4. Anderson says:

    Gostei muito do texto. Parabéns!

  5. Rander says:

    É muito interessante essa visão, em que ao lidar com o paciente estamos lidando com um especialista e por isso deve-se ter o maior cuidado durante o trabalho terapêutico.

  6. Mari Milia says:

    A angústia pode exercer função crucial na simbolização de perigos reais (situação, circunstância) e imaginários (consequências temidas). Interessante quando tratamos da angústia do terapeuta, pois acredito que nos preocupamos mais com a angústia dos pacientes. Precisamos entender os fatores terapêuticos que proporcionam uma maior complementariedade na relação terapeuta-cliente, baixando a ansiedade dos pacientes,favorecendo um maior engajamento no processo e consequentemente uma permanência na terapia.

  7. Érico Douglas Vieira says:

    Olá Ricardo e demais colegas psicodramatistas!
    É interessante a questão da solidão do terapeuta, pois trata-se talvez de uma solidão profissional, de pouca comunicação com outros colegas de profissão. Há meios de diminuir este sentimento com a inserção em grupos de estudos e outras atividades. Por outro lado, há uma intensa vivência humana na relação terapêutica que dificilmente é vivida em outros contextos. O cliente comunica domínios profundos de sua experiência e a comunicação alcança um nível de intimidade difícil de ser repetido em outras relações.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>