1 nov, 2012

Publicado em Discussões e debates

Família

Esta semana trabalhamos alguns temas relativos ao atendimento de famílias.  Sempre que trabalhamos com algum tipo de aglomerado de pessoas, um grupo em formação ou uma rede de pessoas já constituídas em seus interesses, propósitos e intenções (conscientes ou não) somos obrigados a refletir sobre múltiplos ângulos e fatores que ocorrem ao mesmo tempo.

Fazendo um recorte didático e ciente de que tal ação pode nos levar a cometer um atentado contra a complexidade do estudo de famílias, recorremos a quatro aspectos, que nortearam nossa discussão sobre a família em questão, que se apresentava em enorme sofrimento: O eixo institucional, o eixo sócio-histórico, o eixo relacional (forma horizontal) e o eixo “narcísico” ou vertical.

O problema central era a apatia e o descontentamento de um dos terapeutas com os encontros com uma família que começara a atender.

A família em questão atuava de uma forma defensiva e leviana em relação ao problema que os abalara profundamente e que os levou a procurar uma ajuda profissional. Defensivamente alguns membros estavam negando o que havia ocorrido.

Dizemos que a negação, uma forma extremamente comum de se esquivar de difíceis e dolorosos assuntos, é uma forma duplamente perigosa para tais situações.

Se de um lado a dor, o sofrimento e a atônia são momentaneamente aliviados, o problema pode se repetir com uma intensidade tão maior que a maneira de se lidar com o acontecido não suporte tamanha complexidade e força que a questão pode ganhar se ocorrer novamente.

Expliquemos com um exemplo: imaginem que uma criança de cinco anos foi levada por um dos cônjuges para a psicoterapia porque foi impedida, na última hora, de pular da janela de casa. Depois do susto, do terror e de todas as possibilidades de espanto que este cuidador sentiu começa-se o interrogatório do que estava acontecendo e, a criança simplesmente diz que se encontrava triste por todas as brigas recorrentes entre pais e irmãos mais velhos e que como as brigas pareciam culpa dele, talvez se algo de diferente acontecesse, as brigas iriam “embora”.

A intensidade da recorrência do episódio seria uma possível repetição da ação da criança e a iminência de se perder um filho. Isso explica o cuidado de não deixarmos que dores sejam evitadas para se manter um possível equilíbrio momentâneo.

A apatia era o sério clima de negação do outro cônjuge sobre o que acontecera. Para um dos pais, não havia nada de sério ocorrendo e o relato do parceiro era extremamente exagerado.

Voltemos aos nortes teóricos que basearam nossa discussão para ajudar o terapeuta que estava no “front” com esta família.

Do ponto de vista institucional, quais atravessamentos, advindos de outras instituições que nossas sociedades criaram ao longo da história do homem, imprimem formas de atuar, perceber um ao outro, determinam condutas e norteiam sentidos e modos de se viver a vida dentro das famílias?

Um exemplo inegável é a instituição eclesiástica e sua força de determinar rumos para as famílias: vivemos para ajudar o crescimento mútuo e promover as potencialidades dos membros que amamos ou muitas vezes vivemos para perpetuar regras que mantêm potencialidades e desejos sempre adormecidos por regras e direcionamentos que camuflam diversas outras intenções? Como vivemos os sistemas fascistas e autoritários que continuam manipulando desejos e interesses dentro das famílias?

O eixo sócio-histórico levantou uma discussão sobre a origem das famílias. Quando começaram a se formar como grupos e com as características que encontramos hoje? Como era a formação e manutenção da sobrevivência das crianças em outras sociedades e tempos? As pressões e formas de se vender formas de existência, a partir dos valores vividos em uma sociedade pós-industrial e capitalística influência como o consumo de verdades e maneiras de se construir a personalidade são vividos dentro das famílias? Como a identidade de grupos, inclusive a de famílias, é formada nesta era de avanços tecnológicos e excessos de mercadorias que pouco agregam sentido e valores relacionados a conectividade, amor ou afetos que geram potências criativas?

Terminamos esta supervisão estabelecendo alguns parâmetros práticos para nosso colega. Ficamos de responder as perguntas ao longo da semana para aprofundarmos nas questões sociais que circundam a família. Continuamos…

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