19 nov, 2012

Publicado em Sem categoria

O que é alegria?

Esta semana conversamos e refletimos sobre as relações disfuncionais que dificultam o caminhar mais adaptativo e, porque não, alegre entre os membros das famílias.

A palavra alegria foi amplamente questionada por alguns pontos de vistas que nos amparam e normalmente nos norteiam: O que seria alegria ou felicidade pelo ponto de vista do existencialismo? Pelo olhar neuropsicológico, alegria seria um excesso de serotonina e de dopamina causando uma mescla de euforia e bem estar, respectivamente? Estaríamos diante deste sentimento quando eventos sociais nos dessem respaldo dizendo que estamos certo e a alegria seria um reforço social do que é mais comum a todos de se fazer e viver? Seria quando vivêssemos prazeres como um beijo, sexo ou comêssemos algo a tempos desejado e adiado (algo mais parecido com “matar a vontade”)?

Em um livro muito bem escrito divido em áreas do conhecimento como a psicologia, a psiquiatria e a neurociência, o autor, psiquiatra e psicanalista Yorvel Yoram, no livro O inimigo no meu quarto, discute o conhecimento produzido por estas três áreas e suas contribuições para a psicoterapia.

Em um dos capítulos ele nos ajuda a responder a pergunta que fizemos acima. O autor descreve que atendendo uma mulher que apresentava uma depressão grave e impossibilitava a paciente de tomar decisões rápidas e importantes para a vida dela naquele momento, é interpolado violentamente pela paciente quando sugere o início do uso de antidepressivos para ajudar no tratamento. A paciente muito irritada pergunta se aquela alternativa não seria o mesmo que lhe dar pílulas para a felicidade, mas que na verdade não era ela que estava no comando de sua felicidade, era artificial.

O autor então dedica algumas páginas para refletir o que seria felicidade em nosso campo. Como rapidamente observamos neste dia de supervisão, a discussão sobre o tema pode levar intermináveis horas, dias e até mesmo séculos, porque até mesmo os termos alegria e felicidade sofrem constantes mudanças dependendo de que momento e cultura falamos e estamos inseridos.

Durante a leitura  destas páginas, o autor nos ajuda a criar uma territorialização, um campo de sentido e ponto de partida para nortear nossa discussão. Yoram em umas de suas tentativas de minimizar a agressividade e desespero da paciente e, aliar-se a parte saudável dela e não a depressiva, diz que o tratamento que iniciavam não tinha como objetivo principal trazer-lhe felicidade ou alegria mas, sim, aumentar a possibilidade, recursos e principalmente o poder de escolha da paciente.

Aumentar o poder de escolha dos pacientes!!!! Uma frase impactante, de força, extremamente forte, imensamente carregada de alívio.

Porque alívio? Nos retirou o peso e o falso caminho de respondermos o que seria a felicidade. Poderíamos entrar no caminho das instituições (como as eclesiásticas e as militares, por exemplo) que pregam uma verdade e divulgam um caminho certo para se percorrer na vida dizendo o que  é o melhor. Sabemos que neste jogo de poder, permeiam interesses muito diferentes do que os de felicidade e preocupação com a vida daqueles que seguem fielmente estas instituições. Como diriam algumas correntes institucionalistas, inclusive o Psicodrama, que estes interesses estariam muito mais a favor da dominação, exploração e mistificação que ajudam na perpetuação das relações de massacre e de controle de um grupo-povo o que na busca pela felicidade.

Enfim, durante um bom tempo desta supervisão paramos para refletir que a felicidade e alegria talvez pudessem ser consequência, uma espécie de sub-produto do aumento do poder e possibilidade de escolha de uma pessoa ou de um determinado grupo.

Ficamos aliviados com a possibilidade de nosso trabalho não partir de e para uma catequização, mas sim na ajuda de retirar os obstáculos que impedem o crescimento e poder de escolha de alguém e na articulação de propostas entre um grupo que aumente o poder de escolhas, atitudes e ações de um grupo.

Finalizamos a supervisão refletindo sobre como os membros estavam se sentindo e que reflexões sobre nossas experiências relativas a diminuição ou amplitude de escolhas poderíamos compartilhar.

  1. Gilmara says:

    Penso que podemos resgatar nos atendimentos com os nossos clientes, momentos de prazer que ele relatam, porém, não se atentam que sentiram felicidade. Hoje, infelizmente, felicidade não é um sentimento (sensação), mas sim, esta sendo substituido por objetos. Não é a toa que não nos surpreendemos mais quando nossos clientes ficam satisfeitos pelos momentos que desfrutam nos atendimentos. “Como é bom vir aqui, depois que saio daqui me sinto mais leve”. Isso por um lado é bom, mas por outro, me sinaliza o quanto “empobrecidos” estamos ficando. Estamos ficando confinados em quatro paredes (protegidos pelo sigilo profissional) para sermos (com dificuldade) o que queremos ser enquanto pessoa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>